Presidente Cyril Ramaphosa diz que “divisionismo” no ANC afetou gestão do Estado

O Presidente Cyril Ramaphosa considerou hoje perante a comissão judicial ‘Zondo’ que a existência de fações no seio do Congresso Nacional Africano (ANC, na sigla em inglês), partido no poder, afetou a gestão do Estado na África do Sul.

“O divisionismo no ANC traduziu-se na forma como o Estado era governado”, declarou Ramaphosa, perante o juiz Raymond Zondo no termo da investigação de três anos sobre a captura do Estado pela grande corrupção durante o mandato de Jacob Zuma (2009–2018).

“Os nossos problemas, o divisionismo, levaram ao enfraquecimento das instituições”, frisou Cyril Ramaphosa.

O Presidente sul-africano apontou que “2007 é o ano em que a incapacidade do Estado foi iniciada e transformada em captura do Estado”.

Ramaphosa, que concluiu hoje uma audiência de dois dias na qualidade de ex-vice-presidente e Presidente da República, admitiu indiretamente o envolvimento de Zuma na captura do Estado, nome pelo qual ficou conhecido no país a institucionalização da corrupção em massa na administração pública e nos órgãos do Estado sul-africano.

O chefe de Estado disse que o Governo está a investigar alegações de que a Agência de Segurança do Estado (SSA, na sigla em inglês) detinha um “exército privado” a trabalhar para o ex-presidente Jacob Zuma.

“Essa foi uma das razões pelas quais a segurança do Estado foi transferida para a Presidência da República”, frisou.

Cyril Ramaphosa considerou ainda que a captura do Estado existe como projeto “bem organizado” que influenciou a política e os processos legais.

“Os envolvidos também foram protegidos”, admitiu.

O chefe de Estado sul-africano sublinhou que as mudanças em que o seu governo tem vindo a trabalhar desde 2019 “levará tempo a serem implementadas”.

Confrontado com a evidência da cumplicidade de “uma força substancial” dentro do ANC para com a captura do Estado pela grande corrupção, que a comissão judicial considerou ser “até uma maioria”, Ramaphosa admitiu ser o caso, acrescentando que “havia também pessoas sentadas na vedação”.

“É possível que tenhamos sido negligentes, mas não cúmplices”, referiu o Presidente sul-africano.

O chefe de Estado afirmou ainda que a política de Transformação Económica Radical (RET, na sigla em inglês) do Governo do ANC foi usada para alcançar certos objetivos políticos que promovem a captura do Estado.

“A transformação económica radical é uma definição legítima, mas porque as pessoas abastardaram o RET, foi diluída em retórica e tornou-se um rótulo para aqueles que fazem muitas coisas erradas e depois se escondem atrás do RET, indo contra a corrente das políticas do ANC. Tornou-se uma fação”, salientou.

“Temos de voltar ao termo transformação socioeconómica, que retrata corretamente as políticas do ANC”, adiantou Ramaphosa, acrescentando que “pode ser sustentada pelo radicalismo”.

O Presidente sul-africano reconheceu perante a comissão judicial de investigação da captura do Estado que a “influência” da família Gupta – próxima do ex-presidente Zuma – nas nomeações no Governo e nas entidades estatais (SOES, na sigla em inglês) “não foi detetada até ter sido tarde demais”.

Todavia, na sua audiência, Ramaphosa permaneceu relutante em identificar os infratores nas fileiras do ANC, o partido no poder de que é também presidente, adiando a implementação de medidas para a comissão ‘Zondo’ que está prestes a concluir o seu mandato de três anos.

No mandato do seu antecessor, o ex-presidente Zuma, de quem Ramaphosa foi vice-presidente, a influência exercida pela controversa família Gupta sobre o Governo do ANC resultou em contratos estatais multimilionários para as empresas dos Gupta.

Na quarta-feira, o Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, admitiu perante a comissão ‘Zondo’ que se reuniu pela primeira vez com os controversos empresários Gupta, logo após ter sido eleito para a vice-presidência do partido no poder em 2012.(LUSA)